NATAL, DOMINGO, 13 DE JUNHO DE 2004
 
 
CIDADES

NOS CORREDORES DO WALFREDO, "DR. FEIJÃO" USA O LOUVOR PARA ELEVAR O ÂNIMO DOS PACIENTES

 
 
 
 

Música alivia a dor dos pacientes
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Vinícios Albuquerque
Repórter de Cidades
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Um médico do Hospital Walfredo Gurgel, em Natal, acaba de descobrir um antibiótico milagroso que pode salvar diversas vidas: o amor. É esse o medicamento que o cirurgião dentista, com especialização em bucomaxilofacial, Manoel Elísio Feijão Júnior, o “Dr. Feijão”, tem ministrado a seus pacientes durante seus plantões. Tocando instrumentos musicais e cantando músicas do cancioneiro popular e de louvor a Deus, ele consegue afastar a tristeza e a desolação que toma conta dos corredores do HWG. O resultado tem sido uma recuperação mais rápida e menos traumática.

Natural de Sobral no Ceará, o “Dr. Feijão” é cirurgião dentista há mais de quinze anos. Porém, foi há seis anos, que descobriu sua vocação para ajudar através da mpusica. Um dia, enquanto visitava um paciente no terceiro andar do HWG, ele ouviu uma música. “Era uma pessoa louvando a Deus”. Quando entrou um uma sala, o médico encontrou um paciente tocando músicas religiosas. O que mais chamava atenção é que o doente tinha as pernas amputadas.

“Apesar de estar naquela situação, aquele homem tinha um brilho indescritível no olhar. Perguntei porque ele estava cantando aquela música e a resposta foi: ‘Estou agradecendo a Deus pela minha vida'. Apartir desse dia, percebi que a minha missão era levar, através do meu trabalho, mensagens de conforto”, disse.

Feijão acredita que a maneira como o médico trata seus pacientes deve altrapassar os manuais de medicina. “Um médico tem que ir além de um prontuário. É preciso chamar seu paciente pelo nome, dizer o quanto ele é especial, dar um bom dia. Isso faz a diferença para essas pessoas”.

Sobre o trabalho no Walfredo Gurgel, ele declara que é difícil lidar com algumas situações, mas as atribulações podem ser superadas. “É muito triste ver os pacientes nesse estado. Às vezes, temos que trabalhar com improvisação e boa vontade. Esse hospital é cheio de guerreiros e Deus tem feito grandes milagres aqui dentro”.

Seguindo o lema de que “Deus habita nos louvores”, o “Dr. Feijão” trabalha buscando alegrar os pacientes (muitos passam dias e até semanas internados, sem receber visitas) e fazer com que o sofrimento da doença não seja tão grande.

A paciente Maria Dalva da Silva, 74 é uma dessas pessoas que acolhe as mensagens do médico de coração aberto. Em seu quarto dia de internamento (devido a uma forte dor nas pernas, como explica), ela declara que “não teve nem fé” em melhorar. Contudo, a música e a oração têm motivado Silva a se curar cada vez mais rápido.

Na pediatria, o comerciário Dário Maia, 48, que acompanha o filho Wiliam Rais, 4 anos, vítima de um atropelamento de moto, declara que a alegria que o médico traz ajuda a melhorar não só a saúde do paciente, mas também o ambiente triste que se torna o hospital.

O “Dr. Feijão” é evangélico desde os 40 anos e freqüenta a Igreja de Cristo em Natal, no Colégio Bereiano. A entrevista à reportagem do DIÁRIO DE NATAL foi concedida durante um de seus plantões, na noite da última quarta-feira. A mudança que a fé do médico causa nos pacientes é visível nos depoimentos de cada um deles. O pequeno Fábio, de apenas 6 anos, permanecia deitado em seu leito. O dedo na boca era o único consolo para o rosto inchado. Mesmo assim, levantou com a música, tocou pandeiro e ainda consegue esboçar um sorriso. “Tenho notado que os pacientes a quem levo os louvores se curam mais rápido”, declara o médico.

Alguns ficam tão tocados com a mensagem do médico que chegam a chorar. No corredor, a dona de casa Vera Lúcia do Nascimento Dias, 51, explica que, por pouco, não teve um enfarte no último domingo. Enquanto o “Dr. Feijão” tocava, ela não conseguia conter as lágrimas. “É maravilhoso”, eram as únicas palavras que Vera Lúcia, que estava internada há 4 dias, conseguia dizer.

Musicoterapia era usada pelos egípcios

Estetoscópio de lado. Nas mãos, violão, pandeiro e gaita. Esses são os instrumentos que o “Dr. Fejão” utiliza para aliviar a alma de seus pacientes. Ele utiliza uma técnica cada vez mais comum nos tratamentos: a musicaterapia. Esse é uma especialização científica que se ocupa do estudo e investigação da relação som-homem, seja o som musical ou não, e seus aspectos terapêuticos. Mas a utilização da música para o bem-estar e a saúde não são novidade.

Papiros egípicios datados do ano 1.500 antes de Cristo (AC) fazem referência a canções que estimulavam a fertilidade feminina. A própria Bíblia fala que, quando o rei Saul se sentia atormentado por espíritos malignos, Davi dedilhava em sua harpa e o rei, ao ouvir o som, se acalmava. Os filósofos Aristóteles e Platão também falavam da relação entre o homem e a música. Mas, o primeiro curso de musicaterapia foi criado somente em 1944, na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

A música tem mostrado resultados terapêuticos porque afeta o nível de hormônios como o cortisol (responsável pelo estresse e a excitação), testotestora (responsável pela agressividade) e a oxitocina (responsável pelo carinho). Os sons também estimulam as endorfinas (hormônios da felicidade) e a serotonina (neurotransmissor que faz a comunicação entre os neurônios).

Durante seu trabalho de musicaterapia nos leitos dos corredores na pediatria, nos queimados e na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Walfredo, o “Dr. Feijão” pôde perceber a mudança no quadro dos pacientes. “Notei que os pacientes que se queixavam de dores, diante da música, dos louvores e orações, tinham seu sofrimento minimizado”. Ao sorrir, os pacientes liberam diversas reações em seu organismo que ajudam na recuperação.