Ano III - Nº 60 - Parnamirim - RN - 17 a 23 de outubro de 2004
 
 

Comunidade

Cirurgião-dentista que mora em Parnamirim usa a musicoterapia para curar a dor dos enfermos no Hospital Walfredo Gurgel

 
 
 
 

O antibiótico que vem da alma

Há sete anos, o cirurgião-dentista Manoel Elísio Feijão Júnior faz da frase “O amor é o maior antibiótico do mundo” seu lema de vida. Doutor Feijão, como é mais conhecido, é um ilustre morador de Nova Parnamirim, onde vive há 15 anos. O trabalho realizado por ele em hospitais já o tornou uma verdadeira celebridade, com direito a participação até mesmo no Programa do Jô, da Rede Globo de Televisão. Especialista em cirurgia bucomaxilofacial, Doutor Feijão se formou nos anos 80, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, “com rodo orgulho”, e desde 1997 cuida dos pacientes do Walfredo Gurgel levando até eles alegria e terapia em forma de música e palavrasa de conforto. Embora o dentista não escolha a quem ajudar, seu principal alvo são pessoas que sofrem de doenças graves, como os portadores de câncer e vítimas de traumatismo, as crianças e também os idosos. Essas duas últimas, aliás, parcelas da população qua mais sofrem nos hospitais. Durante seu trabalho, principalmente com atendimento de urgências no maior pronto-socorro do Estado, o Clóvis Sarinho, no Walfredo Gurgel, o especialista percebeu a importância de um bom estado de ânimo dos pacientes na sua recuperação médica. “Muitos deles permaneciam internados por vários dias ou semanas, algumas vezes, sem recever visitas, o que contribuía ainda mais para um ambiente de tristeza e desolação, prejudicando o trabalho de recuperação e até contribuindo para o agravamento do problema”, revela. O pontapé para o início do trabalho, não foi dado apenas pela percepção dessa necessidade de alegria, carinho e atenção dos pacientes. Um rapaz em particular o motivou. Ele havia tido suas duas pernas amputadas após um acidente de trânsito e ainda assim não se deixava abater. “Estava no 3º andar do Walfredo e louvava a Deus agradecendo”, recorda Fejão. Depois disso, o Doutor recomeçou a levar seus instrumentos musicais para o hospital e tentar trazer alívio mesmo aos pacientes com doenças terminais. “Sentava-me ao lado deles, começava a tocar violão e a cantar músicas do nosso cancioneiro popular e de louvor a Deus. Pude observar que os rostos se iluminaram. Naquele momento, percebi que aqueles corações se alegraram e uma nova fonte de energia, oriunda da solidariedade humana, tomou conta daqueles corpos fragilizados”, descreve. O objetivo de Doutor Feijão é simples: poder substituir gemidos de dor por um sorriso e a desesperança por um brilho no olhar mesmo dos mais desafortunados. Porém, os resultados são ainda melhores. “Tenho presenciado verdadeiros milagres”, garante o músico que também se diz extremamente recompensado com o trabalho, “Muitas vezes recebo mais do que dou”, avalia. Evangélico há 10 anos, além de cantar e tocar, ele ora com os pacientes. Seu trabalho é incentivado pela esposa, a odontopediatra Ruth Feijão, e pelas duas filhas, Mirella e Patrícia, que já começaram até mesmo a ajudá-lo nas visitas. Fora o Walfredo Gurgel, a musicaterapia do Foutor Feijão já pôde ser ouvida no Varela Santiago, no Maria Alice Fernandes, entre outras unidades. Ele reconhece as origens bíblicas e históricas da musicaterapia. Segundo palavras do profeta Samuel “Sempre que o espírito maligno vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa, e a tocava. Então Saul sentia alívio, se achava melhor, e o espírito se retirava dele.” Os egípicios também cantavam para influenciar na fertilidade das mulheres. Os filósofos gregos Aristóteles e Platão já conheciam a idéia de que a música afeta a saúde e o bem-estar. Cientificamente, porém essa relação só veio a ser comprovada no século passado. No final da Segunda Guerra Mundial (1939-45) músicos tocavam em hospitais para auxiliar o tratamento das vítimas do confronto. O primeiro curso de Musicoterapia foi criado em 1944, na universidade de Michigan. O efeito desse tipo de terapia pode se refletir sobre hormônios como o cortisol, responsável pelo estresse; textosterona, da agressividade e excitação; ea oxitocina, o hormônio do carinho. Age ainda facilitando a comunicação entre os neurônios, através das enforfinas e serotoninas. O sorriso proporcionado pela música também libera endorfina, responsável pela felicidade e o bem-estar. Esse sorriso permite ainda a redução do estresse a da tensão muscular; o aumento de anticorpos nas lágrimas a na boca, melhorando a defesa contra algumas infecções. A lista de benefícios do sorriso se completa com o combate à dor e aceleramento da recuperação; o efeito antiflamatório sobre a artrose; melhoria da pressão sangüinea; oxigenação do cérebro; sendo tão eficaz na produção de endorfinas quanto a cumputura, a meditação e os exercícios físicos. Levando em conta tudo isso foi que o Dr. Feijãose tornou procurado por quem quer se inteirar do assunto.

Terapia poderá ser levada ao Sadi Mendes

Com viagem marcada para Israel, em novembro, e convites para estados próximos, o músico não teve seu trabalho divulgado apenas no Programa do Jô. Feijão Júnior já concedeu entrevistas a programas locais como o RN TV, 60 Minutos e também mostrou sua habilidades musicais e com e com o nunchaku na TV Universitária. O nunchaku, espécie de arma formada por dois bastões e uma corrente interligado, é utilizado nas artes marciais e possui grande poder destrutivo, podendo até mesmo matar. O Doutor Feijão domina esse instrumento desde os 10 anos de idade, como autodidata, e possui diversos, de tipos diferenciados, mas nenhum, vale salientar, com qualquer objetivo de estímulo à violência. Os instrumentos musicais, porém, são mesmo o forte do dentista. Tanto que seus conhecimentos sobre um deles já se transformaram até em livro. Publicado em 2002, o ABC do Pandeiro” traz dicas, ensinamentos e ritmos que podem tornar qualquer pessoa um pandeirista iniciado. A Jô Soares, também músico, Feijão demonstrou que esse instrumento pode ser usado não só para o samba, porém é capaz de acompanhar ritmos como o xote, o frevo, o bolero e o baião.

Cearense de Sobral, mas potiguar de direito, o seu objetivo pessoal atualmente é ampliar o consultório, sem retira-lo de Nova Parnamirim onde se localiza há uma década e meia, e, quem sabe, ver implantado o novo pronto-socorro do Hospital Regional Deoclécio Marques um serviços de urgências bucomaxilofaciais para vítimas de traumatismo. “Sonho em começar esse trabalho de musicoterapia também em Parnamirim, para isso seria necessário um espaço e a infra-estrutura”, acrescenta.